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 Bio         &        Pesquisa

Bio

Ana Pinheiro nasceu em São Paulo, em 1974, onde vive e trabalha.

Graduada em Filosofia pela Universidade de São Paulo e Pós-graduada em Letras pela mesma instituição, com pesquisa dedicada ao sistema metafísico de Ibn'Arabî — filósofo, místico e poeta do século XII —, trabalhou com restauração e encadernação de livros antigos e, na sequência, especializou-se como restauradora de obras de arte sobre papel, ofício que exerceu por mais de dez anos em acervos dos principais museus de São Paulo e do Rio de Janeiro e em coleções particulares. É artista plástica desde 2004, professora de filosofia desde 2002 e terapeuta somática desde 2019.

Tem histórico expositivo em instituições e galerias brasileiras e internacionais, com obras em coleções públicas e privadas.

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Foto: Flávia Valsani

Pesquisa

 

A linha, o traço — assim como a voz e o gesto — são portadores da essência de alguém. Ao desenhar, permaneço atenta ao que cada linha apresenta: ao que ela vem desdobrar, que mundos a habitam, o que ela vem manifestar.

No meu trabalho há uma constante — uma forma que vai se desenvolvendo e se desdobrando em outras, como o germinar da semente dispara formas que se sucedem umas a partir das outras, em expansão germinativa, circular, não linear. Interessa-me observar o que, sendo outro, permanece o mesmo — a continuidade daquilo que permanece em si mesmo transformado, percorrendo, habitando e dando a ver-se em uma profusão de outros.

Essa perspectiva perpassa tudo que faço, incorporando as relações entre forma e vazio, entre linha e espaço, entre repouso e movimento, entre reinos, entre o visível e o invisível.

Desde os primeiros desenhos que emergiram após longos períodos de meditação, silêncio e contemplação, desenhar tem me ensinado que o desenho nasce de uma qualidade de ritmo interno. 

A expansão da linha em áreas de cor, linhas em fluxo que atravessam camadas, tensionam a própria relação entre linguagens — a do desenho e a da pintura.  A qualidade de um olhar que solicita o desenho, por vezes é a mesma que escreve;  a correntinha de crochê tão praticada na infância na presença da minha avó materna, concedeu-me a linha que atravessa desenhos em arco filial de linhas que germinam, religando fio e linha.

Parte central dessa pesquisa se desenvolve na observação direta do mundo vegetal — caminhando, observando, fotografando e desenhando plantas, árvores e vegetações ao longo dos anos, nos jardins, nas hortas, nas ruas da cidade, na Serra da Mantiqueira. Desse processo contínuo de coleta emerge um léxico de formas vivas: silhuetas recortadas em papéis que organizo livremente em composições poéticas sobre a mesa de trabalho, tal como Brecht — muitas vezes subvertendo a ordem natural, compondo paisagens que não existem em nenhum lugar na natureza mas que revelam arranjos da ordem do imaginal, cenas fulgurantes como diria Llansol.

Outros registros e desenhos, inclusive os mais realistas, convivem com esse processo — que nasce na presença em campo, atravessa anotações e coletas, e chega ao ateliê como montagem e desenho.

Diante de uma planta, não apenas registro o que vejo: enquanto a desenho, continuo colhendo o que não se vê, convivendo, conhecendo e adentrando outras camadas do invisível que depois ressurgem, de formas inesperadas, no trabalho.

Esse mesmo gesto de escuta atravessa outros trabalhos, em projetos colaborativos,  — como o desenho de chás personalizados, a partir da relação entre o processos criativo e o ambiente do ateliê de cada artista que participa desse projeto e experimenta esse desenho no seu corpo, bebendo-o.

É no limiar, no entre — entre o visível e o invisível, entre linguagens, entre reinos, entre presenças — que minha pesquisa encontra e habita seu lugar mais próprio. Esses limiares não são zonas de indefinição: são zonas de máxima tensão produtiva, onde o trabalho permanece vivo, aberto, capaz de continuar se desdobrando.

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Permito-me estar diante de um objeto, de um ser, de um lugar — como um livro, uma planta, uma casa, um ateliê — para escutá-lo de outros modos. Não projeto. Espero que algo se dê a ver.

Parto da compreensão de que tudo é manifestação da consciência — e que a consciência, em qualquer uma de suas manifestações, nunca permanece indiferente ao ser reconhecida. Quando essa reconhecimento acontece, o que se desdobra é expressão única desse encontro. O que materializo não é uma interpretação: é o rastro desse encontro.

Minha passagem pela filosofia continua sendo um percurso vivo que se desdobra na arte — nas águas da metafísica, da fenomenologia, no pensamento de Plotino, nos mundos imaginais de Ibn'Arabî, de Hillman, de Barthes, de Brecht, de Aby Warburg,  de Llansol. O que aprendo e desenvolvo na clínica como terapeuta aprofunda e expande meu fazer artístico. E o que descubro e consolido na arte volta a integrar e ampliar minha atuação terapêutica.

A artista, a intelectual e a terapeuta não são faces separadas. São três campos onde uma única pesquisa se desdobra — a investigação do que existe antes de existir visivelmente, e do que acontece quando esse invisível encontra alguém disposto a reconhecê-lo.

Para conhecer cada projeto, acesse a seção Projetos no menu.

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